Impressões sobre o Limbo. Por Cícero.

Conheci a banda através do Bruno Giorgi, que me mostrou “Às bolas de Gude”, do disco “Do Absurdo”. Fiquei tão emocionado com a música que ouvi seguidamente por horas. Pra mim é a música mais bonita de 2011. Como sou naturalmente melodista, não me dou bem com sobressaltos rítmicos, gosto de ritmos repetitivos, tenho predileção por drogas calmantes, não me dou bem com excitações, adrenalina. Tenho pânico e não gosto de acessar as portas negras da consciência. Sempre me entrego a experiências sonoras com esperança de chegar ao relaxamento, ao alívio. Só depois vem a letra, que uso mais pra intuir do que pra entender. Acredito que o entendimento se dá em instância anterior à razão na música. Mesmo que o texto, normalmente, seja o sentimento que levamos pela mão conosco. Me identifico com a poesia livre, exercício de subjetividade, como forma de estabelecer conexão com o outro ser sensível.

Dito isso tudo, LIMBO me soou à primeira audição uma viagem desconfortável e instigante. Ouvindo repetidas vezes, por saber que minha percepção devia expandir pra esse lugar-obra, encontrei no Limbo um dos melhores discos de banda que já ouvi em muito tempo. Os caminhos, o pensamento, a poesia. É um disco completo em suas intenções e paisagens. O mundo que ele averigua tem relevo, tem maldade, dor, loucura, gozo e até amor. Me atravessa pela força do assombro: Nada em mim é eterno, desde que sou imagem. Quanto mais fundo confuso, mais superfície me dano. As coisas são entre nós. Nada em mim o eterno. Tudo em que envelheço. O que dizer? Sentidos novos, um olhar envelhecido sob a vida, um senhor numa cadeira de balanço olhando o sítio descuidado da família que ninguém visita mais e se vendo, descuidado e não-visitado na paisagem que vê. A paisagem é o LIMBO. O canto do Caio me revela um novo caminho, um novo lugar, inspirador. Os sons do LIMBO eu já ouvi em discos de post-rock nos últimos anos. Quase tudo que ouço há muitos anos eu já ouvi antes em algum outro lugar. Quase tudo que um velho ouve ele já ouviu em algum lugar. Mas não é dessa matéria-memória que o LIMBO é feito. É arte. É outra coisa. O canto de Caio e os pensamentos do disco são como agulhas de acupuntura no coração. É a ferramenta simples no ato simples de usá-la com a maior sabedoria possível. Assim os arranjos e a produção ficam imensos, geniais, perfeitos.

Sem essa brincadeira de disco do ano ou nova banda de seilá-o-que, LIMBO é um dos discos mais bonitos dos nossos tempos. Uma honra estar em contato com a poesia recifense deles e um orgulho estar escrevendo isso aqui. Inflo o peito pra soprar bons ventos e que a obra se espalhe!

 

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