Impressões sobre o Limbo. Por Rodrigo Acioli

Como falar de algo tão próximo a mim quanto o Limbo, quanto a música da Rua? Acostumado que sou a falar a partir de uma desconfortável distância de quase dois séculos, recebi um pedido para falar de algo tão próximo quanto essa região de som e luz que é o limbo, que é a Rua, que é também minha rua, uma rua incomum e em comum com tantos. Neste disco, participei como ilustrador e letrista de uma das músicas, É tempo.

Poderia falar de como penso a música, o som, o espaço, o traço e todo o processo de criação. Mas, se não falasse de minha amizade com Caio, estaria omitindo algo fundamental. Escrever sobre o Limbo é fazê-lo tendo em conta que se trata da criação de um espaço comum, de com-dividir o próprio tempo, o espaço, a vida. Escrever sobre o Limbo é escrever sobre a amizade, sobre o heteros autos, o “outro si” ao qual tenho em conta tanto quanto o eu. É a partir daqui que minha fala pode ter começo, da minha amizade com Caio. A partir daqui que se justifica o uso do abusivo pronome “nós” de agora em diante.

Foi a partir de uma proposição que o desafio teve seu início, tínhamos que apresentar o limbo em imagens: seus vazios harmônicos, suas faltas marcantes, as vozes quase sobrepostas, quase as mesmas, as angústias e rompantes de um tempo que, como o tempo, são muitos tempos. Haveria fotos, mas haveria também a intervenção da pena, da tinta sobre elas, haveria rasuras sobre a luz do real… Conversamos há alguns anos sobre o limbo, sobre a densidade desse espaço e a residência nesse tempo – nessa heterotopia. Mas, a ideia não era testada ainda, não se sabia como seriam as fotos, menos ainda as intervenções.

Dante Alighiere é talvez o nome primeiro que vem a mente quando se fala em Limbo, mais ainda do que a bíblia. Foi com Dante que o limbo ganhou a densidade e a textura que têm, bem como os tantos outros ciclos infernais aos quais habitamos alegremente. Para Dante, entretanto, o limbo era uma introdução, um lugar ainda tranquilo antes dos infernos. É lá que Virgílio começa por apresentar Dante aos grandes poetas da antiguidade, sombras de seus próprios fantasmas, e não obstante, continuam a viver, discutir e criar. O limbo, para nós, não se dava como passagem, não era Dante que nos assaltava o pensamento, mas um conterrâneo seu separado por meros séculos, Giorgio Agamben, que, em sua breve descrição do Limbo, nos assombrava.

Assombra-nos ainda:

“Existe, no entanto, um caso, um único, em que esta condição deixa ser infeliz e alcança uma felicidade muito peculiar: é o das crianças não batizadas que morreram sem pecado, a não ser o original, e que permanecem eternamente no limbo, na companhia dos loucos e dos pagãos.” (Ideia de política, p.69)

O assombro é justamente a clareza e tranquilidade dessa felicidade singular, sim, é aí que vivemos, neste limbo, repleto de crianças, loucos e pagãos. Para quê criar nesta região do limbo é precisamente o nosso problema. Criar sabendo que “nada em mim é eterno”, que a luz divina, simplesmente, não importa. Este assombro não é novo, foi em seu nome que a pena e as vozes foram mobilizadas ainda nos tempos do Absurdo. A felicidade com que Albert Camus propunha uma tarefa ética, a de que “é preciso imaginar um Sísifo feliz”. Entre o momento de levar a pedra morro acima e o pequeno segundo antes da pedra tornar a cair, é possível ver um sorriso esboçado nos lábios de Sísifo, enquanto, lá de cima, olha a imensa pedra rolar morro abaixo. Bem, é isso! Dissemos uns aos outros.

Residir no limbo é aceitar a vida como intervalar, o fim é já dado desde o início, não havendo, pois, o que se ocupar dele; a luz divina ou de qualquer perenidade está para sempre perdida. Responder por que criamos num limbo é um imperativo ético. Saber a razão que nos leva a impor ao mundo formas, traços, tirarmos do ruído e do murmúrio do mundo sons para replicarmos a ele. Por que mais músicas, mais imagens, mais palavras?… Residir no limbo é tomar gosto por abismos e limites, então a mudez, a afasia e a sensação de que nada mais temos a dizer já nos basta, como Sísifos felizes, para dizermos uma vez mais da nossa própria tartamudez, e, empurrarmos uma vez mais a pedra da linguagem para cima da montanha mais alta. A ambição de criar nesse quase zero que é o limbo não é humildade, modéstia ou niilismo, não se enganem, “eu, sem sol, sem deus, nem amor” não é uma proposição pessimista, as negações não devem nos deixar de entrever a potência desse gesto que devolve ao homem sua própria substância, que lhe repõe a autoridade inaudita sobre seu corpo, sobre sua solidão. Gesto difícil – “é feito gota rasgar”. Ali, no lugar preciso onde nos faltam palavras é o lugar onde se inicia a poesia.

Estamos no limbo. No limbo das crianças e dos loucos e longe da luz de deus, a sombra de seu esquecimento. Rasurar os corpos foi a solução gráfica encontrada, colocar sobre os corpos a marca branca de uma elisão, de algo que oculta e lhe subtrai a camada humana, mas ao mesmo tempo deixa entrever algo desse humano. É o registro do fantasma. A fotografia, se entendida como registro sensível de uma realidade luminescente passada, nos dá isso sempre, o registro de um fantasma. Então, a tarefa era tão somente tornar essa fantasmagoria óbvia.

Contudo, a sensação e as impressões de ter uma letra musicada neste disco… Há! Esta sensação guardarei, ainda, egoísta que sou…

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s