About

Rua em 3×4 por Flora Pimentel

Rua do Absurdo é uma das bandas que movimentam a instigante cena musical pernambucana. Formada por Caio Lima (Voz), Yuri Pimentel (Contrabaixo), Hugo Medeiros (Bateria), Nelson Brederode (Cavaco) e Bruno Giorgi (Texturas), o coletivo busca experimentar as fronteiras estéticas da canção dando forma a um emaranhado de influências, com uma proposta musical característica e instigante. “Desde o início percebíamos nos ensaios, o sintoma de uma música que se afirma como fruto da procura individual dos integrantes por uma forma íntima de combinar os sons”, explica Caio Lima.

Seis anos após o Limbo, a Rua se prepara para lançar Queda. O terceiro álbum da banda é a materialização de um longo processo criativo em que o grupo questionou sua forma de agir artisticamente diante de um cenário cada vez mais degradante, marcado por crises que se acumulam entre os trágicos efeitos das mudanças climáticas, o recrudescimento da necropolítica, a proliferação de visões sobre o fim do mundo e o encontro com a alteridade do pensamento ameríndio de Aílton Krenak e Davi Kopenawa Yanomami. Queda é uma proposição estética da Rua do Absurdo ao tempo das catástrofes.


Produzido de forma independente pelos seus integrantes, o disco conta com as participações de Alessandra Leão, Marcelo Campello, Thelmo Cristovam, Pedro Sanchez, Jean Elton e João Marcelo Ferraz. Seu lançamento está previsto para o dia 27 de Julho de 2020, exclusivamente pelo site da banda (ruadoabsurdo.com.br). Lá será possível escutar/baixar as faixas e a arte do disco em alta resolução, por um preço estipulado em $2 (transação via Bandcamp). Parte do dinheiro arrecadado com as vendas será destinada às iniciativas “Amazônia contra a Covid-19” e “APIB – Articulação dos povos indígenas do Brasil”. Para fortalecer a campanha, a Rua preparou uma série de posts que contam um pouco do processo criativo de Queda, além de teasers produzidos por Raphael Malta Clasen, Flora Pimentel e a Cia. Etc. que apresentam variações das músicas do álbum. A série e os teasers serão disponibilizados nos perfis da banda nas redes sociais – Instagram, Youtube e Facebook.


“A gente não fez outra coisa nos últimos tempos senão despencar.”

(Krenak em Ideias para Adiar o Fim do Mundo)


Diante da crise ecológica impulsionada pela agência humana, as canções de Queda ensaiam uma crítica ao antropocentrismo e às modernas distinções entre história humana e história natural, cultura e natureza. Se o Antropoceno é a presente Era quando as atividades humanas tornam-se uma força geológica capaz de alterar radicalmente o clima da Terra, a sensação de cair e perder o mundo é um efeito da irrupção da natureza na subjetividade moderna. Para adiar o fim do mundo, somos convocados a considerar as dimensões geopoéticas da existência como modo de repensar o que nos faz humanos. Então Queda é apenas um movimento, é realismo, as coisas simplesmente caem e isso implica a coexistência de forças, de comunicação… Por isso a busca foi por tentar descrever as coisas funcionando. Diante da intrusão de Gaia, as seis músicas do disco contam uma jornada por rupturas sucessivas com imagens da Modernidade: o poeta devorado pela onça; o velho engolido pelo mar; o narciso que torna-se floresta; o céu da cidade caindo sobre o mendigo; uma árvore que dança o pensamento; e uma queda de cara no chão. Seguindo a sugestão de Krenak, procuramos construir paraquedas coloridos perante a desconfortável sensação de estar caindo.

Derme e a sonoridade de Queda

Ao contrário dos discos anteriores em que a parte gráfica foi produzida a partir do álbum, a imagem de Queda existia antes mesmo de suas canções. A foto cinza escolhida para a capa se sobressai no colorido ensaio Derme do fotógrafo sergipano Flávio Emanuel (@fotosdeflavio) que por 25 dias vagou pelas ruas de Nova York capturando no universo da colagem as imagens para as suas inquietações existenciais. Em Derme, cartazes, tintas e tapumes manipulados aleatoriamente por passantes e expostos a ação inevitável do mundo natural tornam-se metáforas para a formação da identidade.

“Com o tempo vêm os danos, os rasgos, os novos cartazes, rabiscos, mais tinta, até o dia em que os tapumes caem.”

(extraído do release de Derme)

O tempo em Derme aparece tecido por camadas e detritos humanos e não-humanos e evoca tanto a voracidade do capital sobre a Terra quanto a nossa dependência da materialidade do planeta. Derme e Queda ligam-se a princípio por essa consideração. Se em Derme, a arte se faz dos eventos caóticos que montam uma imagem ruidosa do tempo, em Queda, as canções pesam, pois compõem-se da acumulação de procedimentos, instrumentos, padrões polirrítmicos, vozes e planos sonoros. Entre subgraves, drones, delays, paisagens sonoras, coros heterofônicos e outros ruídos, as canções ensaiam formações rochosas e ressonâncias oceânicas, vozes animalescas e tremores de terra, atmosfera de floresta entre estruturas de concreto e aço, gradações de intensidade, como um ato político de valorização da multiplicidade de vozes e do agenciamento dos conflitos nos espaços democráticos atuais.

Mais sobre a Rua

O grupo surgiu em 2009 entre amigos do curso de música da Universidade Federal de Pernambuco que tinham em comum a intensa investigação sobre formas de composição musical e o interesse pela criação artística de forma geral. A dança e o movimento do corpo num sentido mais amplo são estímulos fortes para o processo de composição. O grande interesse da banda é saber como o som movimenta, como fazer as pessoas se moverem sem cair na necessidade de uma música dançante. Eles se reconheceram e conflitaram musicalmente durante anos, criando o que é hoje a identidade da banda. Apesar do traçado minimalista, classificar a Rua talvez crie uma expectativa pouco provável de ser correspondida. “Nossa música promete ao espectador uma viagem e pelo menos uma dança íntima”, resume Caio.

Em onze anos de formação, a Rua guarda a memória de dois discos bem recebidos por público e crítica de todo o Brasil – Do Absurdo (2011) e Limbo (2014), premiações por produção de trilhas sonoras de filmes e espetáculos de dança e diversas apresentações em festivais de música e espaços culturais realizados em Pernambuco e fora do Estado. 

ruadoabsurdo.com.br

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s