Impressões sobre o Limbo. Por Daniel Breda.

Do ponto culminante do planeta aos limites do universo observável e de volta em 46 minutos. Ao fim, é bom olhar ao redor e ver a loucura do consumo, a violência, o fanatismo dos confortos materiais e morais. A minúscula e efêmera existência, coroada pela falta de grandeza. Fractais do universo ou buracos negros de si próprios? Ao fim, é bom ver a armadilha da formalidade artística, do regionalismo asfixiante, da forja fordística de talentos (e de “gostos”) musicais. A maiúscula e densa “indústria” cultural, coroada pela falta de grandeza. Fractais da sociedade ou caricaturas de si próprios? Ao fim, é bom olhar a saudade e dar-se o direito de negá-la, pisar no velho espectro de Maat, saudar o de desejo das folhas. A vetusta e esplêndida inspiração, coroada pela falta de certeza. Fractais do zunido do universo, ou deuses de si próprios? Para apreciar, um naraka, um limbo, uma crença, uma promessa, uma maldade, uma meticulosa garoa de acordes, meticulosos silêncios, uma agudeza fina sobre a música, de volta, em 46 minutos, do ponto culminante do universo aos limites das profundezas observáveis de si próprio.

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Impressões sobre o Limbo. Por Cícero.

Conheci a banda através do Bruno Giorgi, que me mostrou “Às bolas de Gude”, do disco “Do Absurdo”. Fiquei tão emocionado com a música que ouvi seguidamente por horas. Pra mim é a música mais bonita de 2011. Como sou naturalmente melodista, não me dou bem com sobressaltos rítmicos, gosto de ritmos repetitivos, tenho predileção por drogas calmantes, não me dou bem com excitações, adrenalina. Tenho pânico e não gosto de acessar as portas negras da consciência. Sempre me entrego a experiências sonoras com esperança de chegar ao relaxamento, ao alívio. Só depois vem a letra, que uso mais pra intuir do que pra entender. Acredito que o entendimento se dá em instância anterior à razão na música. Mesmo que o texto, normalmente, seja o sentimento que levamos pela mão conosco. Me identifico com a poesia livre, exercício de subjetividade, como forma de estabelecer conexão com o outro ser sensível.

Dito isso tudo, LIMBO me soou à primeira audição uma viagem desconfortável e instigante. Ouvindo repetidas vezes, por saber que minha percepção devia expandir pra esse lugar-obra, encontrei no Limbo um dos melhores discos de banda que já ouvi em muito tempo. Os caminhos, o pensamento, a poesia. É um disco completo em suas intenções e paisagens. O mundo que ele averigua tem relevo, tem maldade, dor, loucura, gozo e até amor. Me atravessa pela força do assombro: Nada em mim é eterno, desde que sou imagem. Quanto mais fundo confuso, mais superfície me dano. As coisas são entre nós. Nada em mim o eterno. Tudo em que envelheço. O que dizer? Sentidos novos, um olhar envelhecido sob a vida, um senhor numa cadeira de balanço olhando o sítio descuidado da família que ninguém visita mais e se vendo, descuidado e não-visitado na paisagem que vê. A paisagem é o LIMBO. O canto do Caio me revela um novo caminho, um novo lugar, inspirador. Os sons do LIMBO eu já ouvi em discos de post-rock nos últimos anos. Quase tudo que ouço há muitos anos eu já ouvi antes em algum outro lugar. Quase tudo que um velho ouve ele já ouviu em algum lugar. Mas não é dessa matéria-memória que o LIMBO é feito. É arte. É outra coisa. O canto de Caio e os pensamentos do disco são como agulhas de acupuntura no coração. É a ferramenta simples no ato simples de usá-la com a maior sabedoria possível. Assim os arranjos e a produção ficam imensos, geniais, perfeitos.

Sem essa brincadeira de disco do ano ou nova banda de seilá-o-que, LIMBO é um dos discos mais bonitos dos nossos tempos. Uma honra estar em contato com a poesia recifense deles e um orgulho estar escrevendo isso aqui. Inflo o peito pra soprar bons ventos e que a obra se espalhe!

 

Impressões sobre o Limbo. Por Rodrigo Acioli.

Como falar de algo tão próximo a mim quanto o Limbo, quanto a música da Rua? Acostumado que sou a falar a partir de uma desconfortável distância de quase dois séculos, recebi um pedido para falar de algo tão próximo quanto essa região de som e luz que é o limbo, que é a Rua, que é também minha rua, uma rua incomum e em comum com tantos. Neste disco, participei como ilustrador e letrista de uma das músicas, É tempo.

Poderia falar de como penso a música, o som, o espaço, o traço e todo o processo de criação. Mas, se não falasse de minha amizade com Caio, estaria omitindo algo fundamental. Escrever sobre o Limbo é fazê-lo tendo em conta que se trata da criação de um espaço comum, de com-dividir o próprio tempo, o espaço, a vida. Escrever sobre o Limbo é escrever sobre a amizade, sobre o heteros autos, o “outro si” ao qual tenho em conta tanto quanto o eu. É a partir daqui que minha fala pode ter começo, da minha amizade com Caio. A partir daqui que se justifica o uso do abusivo pronome “nós” de agora em diante.

Foi a partir de uma proposição que o desafio teve seu início, tínhamos que apresentar o limbo em imagens: seus vazios harmônicos, suas faltas marcantes, as vozes quase sobrepostas, quase as mesmas, as angústias e rompantes de um tempo que, como o tempo, são muitos tempos. Haveria fotos, mas haveria também a intervenção da pena, da tinta sobre elas, haveria rasuras sobre a luz do real… Conversamos há alguns anos sobre o limbo, sobre a densidade desse espaço e a residência nesse tempo – nessa heterotopia. Mas, a ideia não era testada ainda, não se sabia como seriam as fotos, menos ainda as intervenções.

Dante Alighiere é talvez o nome primeiro que vem a mente quando se fala em Limbo, mais ainda do que a bíblia. Foi com Dante que o limbo ganhou a densidade e a textura que têm, bem como os tantos outros ciclos infernais aos quais habitamos alegremente. Para Dante, entretanto, o limbo era uma introdução, um lugar ainda tranquilo antes dos infernos. É lá que Virgílio começa por apresentar Dante aos grandes poetas da antiguidade, sombras de seus próprios fantasmas, e não obstante, continuam a viver, discutir e criar. O limbo, para nós, não se dava como passagem, não era Dante que nos assaltava o pensamento, mas um conterrâneo seu separado por meros séculos, Giorgio Agamben, que, em sua breve descrição do Limbo, nos assombrava.

Assombra-nos ainda:

“Existe, no entanto, um caso, um único, em que esta condição deixa ser infeliz e alcança uma felicidade muito peculiar: é o das crianças não batizadas que morreram sem pecado, a não ser o original, e que permanecem eternamente no limbo, na companhia dos loucos e dos pagãos.” (Ideia de política, p.69)

O assombro é justamente a clareza e tranquilidade dessa felicidade singular, sim, é aí que vivemos, neste limbo, repleto de crianças, loucos e pagãos. Para quê criar nesta região do limbo é precisamente o nosso problema. Criar sabendo que “nada em mim é eterno”, que a luz divina, simplesmente, não importa. Este assombro não é novo, foi em seu nome que a pena e as vozes foram mobilizadas ainda nos tempos do Absurdo. A felicidade com que Albert Camus propunha uma tarefa ética, a de que “é preciso imaginar um Sísifo feliz”. Entre o momento de levar a pedra morro acima e o pequeno segundo antes da pedra tornar a cair, é possível ver um sorriso esboçado nos lábios de Sísifo, enquanto, lá de cima, olha a imensa pedra rolar morro abaixo. Bem, é isso! Dissemos uns aos outros.

Residir no limbo é aceitar a vida como intervalar, o fim é já dado desde o início, não havendo, pois, o que se ocupar dele; a luz divina ou de qualquer perenidade está para sempre perdida. Responder por que criamos num limbo é um imperativo ético. Saber a razão que nos leva a impor ao mundo formas, traços, tirarmos do ruído e do murmúrio do mundo sons para replicarmos a ele. Por que mais músicas, mais imagens, mais palavras?… Residir no limbo é tomar gosto por abismos e limites, então a mudez, a afasia e a sensação de que nada mais temos a dizer já nos basta, como Sísifos felizes, para dizermos uma vez mais da nossa própria tartamudez, e, empurrarmos uma vez mais a pedra da linguagem para cima da montanha mais alta. A ambição de criar nesse quase zero que é o limbo não é humildade, modéstia ou niilismo, não se enganem, “eu, sem sol, sem deus, nem amor” não é uma proposição pessimista, as negações não devem nos deixar de entrever a potência desse gesto que devolve ao homem sua própria substância, que lhe repõe a autoridade inaudita sobre seu corpo, sobre sua solidão. Gesto difícil – “é feito gota rasgar”. Ali, no lugar preciso onde nos faltam palavras é o lugar onde se inicia a poesia.

Estamos no limbo. No limbo das crianças e dos loucos e longe da luz de deus, a sombra de seu esquecimento. Rasurar os corpos foi a solução gráfica encontrada, colocar sobre os corpos a marca branca de uma elisão, de algo que oculta e lhe subtrai a camada humana, mas ao mesmo tempo deixa entrever algo desse humano. É o registro do fantasma. A fotografia, se entendida como registro sensível de uma realidade luminescente passada, nos dá isso sempre, o registro de um fantasma. Então, a tarefa era tão somente tornar essa fantasmagoria óbvia.

Contudo, a sensação e as impressões de ter uma letra musicada neste disco… Há! Esta sensação guardarei, ainda, egoísta que sou…

Para circular

“(…) Anny Milovanoff afirma que ‘no pensamento do nômade, o habitat não está vinculado a um território, mas antes a um itinerário’. O trajeto o mobiliza.

Assim, cada ser — e por que não escutas (do ouvir)? — ao invés de constituir espaços fechados, como partes de comunicação regulada, encontra-se, pelo contrário, distribuído ‘num espaço aberto, indefinido, não comunicante’. Neste momento propomos um exercício: a escuta da ‘música das ruas’. E, ao falar de uma ‘música das ruas’, estamos aproximando-a da idéia de ‘música flutuante’. ‘Música das ruas’: uma textura sonora que a cidade secreta. Ruas. Rico tecido de sons que se movem e nos arrastam. Diferentes velocidades. Diferentes dinâmicas. Música das ruas. Nervosa. Palpitante. Explosiva. Mapa aberto. Pontos que se conectam como um rizoma. Música que flutua.” dos Santos, 2001.

Entre ouvir e escutar

“Escutar é uma função que se dirige ativamente ao evento ou acontecimento que está por trás do som. Nesse sentido, o som é um indício que, ao franquear a entrada a uma rede de experiências e associações, nos informa sobre o que queremos saber daquilo que o causou. Por exemplo, quando escutamos atentos o som que produz o motor de um carro distante em um lugar isolado, é possível que estejamos quer…endo descobrir se é a caminhonete do correio, o jipe do vizinho ou uma visita inesperada. Da mesma maneira ficamos atentos ao ruído da fechadura da porta, pois queremos saber quem está chegando em casa.

Ouvir é uma recepção passiva do som. Não podemos deixar de ouvir, pois nossos ouvidos não tem pálpebras e o mundo que habitamos é forçosamente ruidoso. Mesmo o silêncio se faz aparente porque ouvimos o assovio do vento, o tic-tac do relógio ou um sussurro à distância. A imprevisão de um som nos impacta e chama nossa atenção sem que possamos evitá-lo. Em oposição à função de escutar, dirigida ao acontecimento externo e portanto objetiva, esta função se centra em nossa resposta imediata ao som e é por isso qualificada por Schaeffer (1966) como
subjetiva.”  Aguilar, 2005.

por falar nisso, alguém tem o Tratado dos objetos musicais para vender?