Release

 

A Rua é habitada por cinco instrumentistas/compositores curiosos em explorar as fronteiras estéticas da música. Caio Lima (voz e sintetizador), Hugo Medeiros (bateria e marimba de vidro), Nelson Brederode (Cavaco e Bandolim), Yuri Pimentel (baixo e baixo acústico) e Bruno Giorgi (guitarra e overdubs) dão forma a um emaranhado de influências, com uma proposta musical característica e instigante. “Desde o início percebíamos, nos ensaios, o sintoma da música que se afirma como fruto da procura individual dos integrantes por uma forma íntima de combinar os sons”, explica Caio Lima. Eles se reconheceram e conflitaram musicalmente durante anos, criando o que é hoje a identidade da banda.

Apesar do traçado minimalista, somado a elementos de free jazz, samba e trip rock, classificar a Rua talvez crie uma expectativa pouco provável de ser correspondida. E a banda tem essa intenção. “A nossa música promete ao espectador uma viagem e pelo menos uma dança mínima, íntima”, resume Caio o que possa vir a tentar ser definido. O grupo inspira-se no mesmo movimento de nomes como Philip Glass e Steve Reich, mas cada uma de suas músicas permeia um universo diferente. Já na primeira faixa do disco de estréia “do absurdo”, sugestivamente intitulada No Mínimo Era Isso, é notável a proposta minimalista. Enquanto Rainha da Bateria transparece um samba longe do óbvio, Todalegria tem peso mais alternativo, com efeitos de delay no cavaco que convida a sentir a experimentação dos instrumentos – o que se faz presente em todo o álbum.


Do Absurdo

“Do absurdo é onde surge toda a criação. É também a única forma de responder o surgimento da banda e a sua música”, explica o vocalista. O álbum contou com incentivo do Funcultura e foi gravado e mixado no estúdio Carranca, no Recife, e no estúdio O Quarto, no Rio de Janeiro, com produção da própria Rua e co-produção de Bruno Giorgi, que logo passaria também a ser integrante da banda.

No disco há treze faixas que “se unem pela própria diferença das músicas, deixando claro as muitas influências de cada integrante”, descreve o baterista Hugo Medeiros. Se a ideia inicial era a de um som mais acústico, logo as trocas se tornaram evidentes nas seções de mixagem no Rio influenciando no aspecto eletrônico final.

Recentemente, o trabalho foi comentado no jornal Diário de Pernambuco pelo músico Lula Queiroga:

“Não foi surpresa nenhuma ouvir um material tão bem acabado vindo de uma galera que leva música tão a sério. Do absurdo trabalha bonito entre os timbres e as pausas. A letra cantada faz parte da textura. E o encontro disso tudo resulta numa obra detalhista, minimal. Parabéns a todos da banda Rua e a Nelson por nos lembrar que o cavaquinho pode ser um instrumento tão nobre”. 

Depois de disponibilizar algumas faixas na web, a banda subiu ao palco do Teatro Arraial (Recife/2011) para lançar o cd, agradando a quem costuma sair de casa a fim de se surpreender com o novo. Logo depois, foram convidados para tocar no consagrado festival No Ar Coquetel Molotov, se apresentando no mesmo palco de artistas como Hindi Zahra (França), Copacabana Club (PR) e Nuda (PE). O vocalista da banda Eddie, Fábio Trummer, indicou o trabalho da banda para participar do concurso Lycra Future Designers. E o site americano Sounds and Colours incluiu a música Todalegria na coletânea “Musica da Massa: New Sounds of Pernambuco“.


Multiplataforma

A Rua não pretende ser um grupo destinado apenas ao uso da música no palco. Quer mesmo é expandir seus campos de atuação, experimentar a música em linguagens variadas. Por isto, outras formas de expressão foram desenvolvidas paralelamente a gravação do CD “do absurdo”. A relação com a composição de trilhas sonoras é uma delas. Começou com o trabalho no espetáculo Corposição, da companhia de dança DAM, participante do Festival Único (Sesc). Posteriormente, a realização da trilha sonora de Dark Room, espetáculo da Cia. Etc. de dança, indicada ao prêmio de melhor trilha sonora do 18° Festival Internacional Janeiro de Grandes Espetáculos. Ainda junto à Cia. Etc. compuseram a trilha sonora da videodança Bokeh, que foi premiada pela Fundarpe no 12° Festival de Vídeo de Pernambuco.

Além disso, um projeto audiovisual em parceria com o cineasta pernambucano Diogo Luna estreou na mostra audiovisual olindense “Curta no Xinxim”. No curta, Diogo aborda o processo criativo da banda e é possível ver e ouvir as músicas TodalegriaPágina 6 e Pala. O vídeo está disponível no site da banda (ruadoabsurdo.com.br).

Às bolas de gude

Letra: Caio Lima

Música: Caio Lima e Hugo Medeiros

É,
as coisas muito boas vão embora mais cedo
a maldade é flor de uma menina
a quem você devota
a quem você dedica
a quem você confia o gozo
a quem você ensina a viver
pensando você pensando em você

ela, o dia torto de um inverno inteiro ao vento morno
ela, a esperança desespera e o futuro fica a cada vez menor
cigarras cantam à correnteza
sua menina não vem lhe ver
para beijar os pés mordidos pelo chão
você achando que o chão por ser um chão
dormia
e você chegava cada vez mais perto
de um lugar bonito de se crer
pensando em você
feliz toda manhã

as coisas muito boas vão embora mais cedo
você cai no mundo do estranho
com muitas mentiras a dizer
quem a você devota
quem a você dedica
quem a você confia o gozo
quem a você ensina a viver
pensando em você
feliz toda manhã.

Para circular

“(…) Anny Milovanoff afirma que ‘no pensamento do nômade, o habitat não está vinculado a um território, mas antes a um itinerário’. O trajeto o mobiliza.

Assim, cada ser — e por que não escutas (do ouvir)? — ao invés de constituir espaços fechados, como partes de comunicação regulada, encontra-se, pelo contrário, distribuído ‘num espaço aberto, indefinido, não comunicante’. Neste momento propomos um exercício: a escuta da ‘música das ruas’. E, ao falar de uma ‘música das ruas’, estamos aproximando-a da idéia de ‘música flutuante’. ‘Música das ruas': uma textura sonora que a cidade secreta. Ruas. Rico tecido de sons que se movem e nos arrastam. Diferentes velocidades. Diferentes dinâmicas. Música das ruas. Nervosa. Palpitante. Explosiva. Mapa aberto. Pontos que se conectam como um rizoma. Música que flutua.” dos Santos, 2001.

Ais

Ais

Letra: Caio Lima

Música: Caio Lima, Hugo Medeiros e Yuri Pimentel

 

Por ter coração cê quer doer

por ter coração se quer doer

tanta piedade de um fim

 

Por ter coração cê vai doer

por ter coração se vai doer

tanta piedade

 

Na areia branca lua cheia me namora só na minha veia velha dança me passeia bem estar nariz até debaixo d’água não aperreia solta

a corda na minha velha veia dança sem compasso dança seu compasso.

Entre ouvir e escutar

“Escutar é uma função que se dirige ativamente ao evento ou acontecimento que está por trás do som. Nesse sentido, o som é um indício que, ao franquear a entrada a uma rede de experiências e associações, nos informa sobre o que queremos saber daquilo que o causou. Por exemplo, quando escutamos atentos o som que produz o motor de um carro distante em um lugar isolado, é possível que estejamos quer…endo descobrir se é a caminhonete do correio, o jipe do vizinho ou uma visita inesperada. Da mesma maneira ficamos atentos ao ruído da fechadura da porta, pois queremos saber quem está chegando em casa.

Ouvir é uma recepção passiva do som. Não podemos deixar de ouvir, pois nossos ouvidos não tem pálpebras e o mundo que habitamos é forçosamente ruidoso. Mesmo o silêncio se faz aparente porque ouvimos o assovio do vento, o tic-tac do relógio ou um sussurro à distância. A imprevisão de um som nos impacta e chama nossa atenção sem que possamos evitá-lo. Em oposição à função de escutar, dirigida ao acontecimento externo e portanto objetiva, esta função se centra em nossa resposta imediata ao som e é por isso qualificada por Schaeffer (1966) como
subjetiva.”  Aguilar, 2005.

por falar nisso, alguém tem o Tratado dos objetos musicais para vender?